Terça-feira, Julho 07, 2009
Hoje adormeço mais feliz. Consegui arranjar uma casa para uma linda gatinha abandonada de pêlo creme e fantásticos olhos azuis. Falta-me dono para o orelhas... gatinho preto muito, muito meigo e dono de umas fantásticas orelhas arrebitadas. Alguém precisa de um amigo?
Quinta-feira, Junho 18, 2009
ignorância
Cultivar a rendição. Perceber no corpo a possibilidade do vôo livre através do desapego. A agricultura da vida medra em solo frágil e o amor é o adubo biológico em tempos de guerra química. As sementes da paz fazem o pão consagrado à salvação e a ceia não é só dos escolhidos mas dos aleatoriamente sobreviventes. Nem só os bons. Nem só os iluminados. Sentar-nos-emos à mesa e olhar-nos-emos curiosos perante a perplexidade da escolha. Como antes - o justo e o ladrão. Bastará porventura o arrependimento?
Quem dera não houvessem inevitabilidades e o percurso do crescimento fosse conduta de água cristalina isenta de sangue e dor. Nem a verdade nem a lógica. Nenhuma me é dado alcançar. Como a dança do junco rendido ao vento que abraça a divina transparência que o faz balouçar. Que sabedoria tão plena é esta que conjuga a aceitação com o conhecimento? Como poderei eu alcançá-la?
Quem dera não houvessem inevitabilidades e o percurso do crescimento fosse conduta de água cristalina isenta de sangue e dor. Nem a verdade nem a lógica. Nenhuma me é dado alcançar. Como a dança do junco rendido ao vento que abraça a divina transparência que o faz balouçar. Que sabedoria tão plena é esta que conjuga a aceitação com o conhecimento? Como poderei eu alcançá-la?
Quinta-feira, Junho 04, 2009
modas, impedimentos e teoria da conspiração
Os já não tão jovens leitores que, como eu, pertencem à categoria dos entinhas, recordar-se-ão por certo de que, quando éramos miúdos, se praticava com fervor e quase displicência a amigdalectomia. Por dá aquela palha, zuca! Extraíam as amígdalas ao pessoal miúdo que assim se via em casa a papar gelados com fartura. Eu, por sorte ou infortúnio, padeci de amigdalites em série, com direito a injecções regulares de penicilina - a célebre trilogia do penadur - febrões e outros incómodos associados sem que o meu pediatra se comovesse e me enviasse à faca. Dizia ele - creio hoje que pleno de razão e sabedoria - que se cá estavam é porque faziam falta, funcionavam como filtro para que a infecção não descesse goela abaixo indo provocar inflamação em zonas mais internas e de difícil cura. Estes eram os tempos e as modas.
Dá-se agora o caso de, no outro dia, ter sido atacada por mais uma dor insuportável provocada por uma crise de vesícula. Interrompi os meus trabalhos de diligente funcionária e dirigi-me ao centro de saúde. Fui atendida com bastante prontidão e revisitei a maca onde, já no ano transacto, estive igualmente estendida pelo mesmo motivo a receber soro com analgésico. Após meia hora de chuto para a veia, fui de novo à médica que me confronta com a sua solução para o problema:
- Ouça, porque é que não vai agora mesmo para o Hospital para lhe tirarem a vesícula? Isso não está aí a fazer nada! É uma intervenção facílima e amanhã já está em casa.
Lá lhe expliquei que não podia, que não me dava jeito e que, na verdade, tinha de me despachar para ir buscar a minha filha à escola.
A médica olhava para mim estupefacta, como se não fosse credível que alguém perante tão maravilhosa proposta de intervenção cirúrgica, preferisse ir buscar a filha à escola. Consegui safar-me, fui buscar a miúda, fui para casa fazer o jantar e a pensar com os meus botões que àquela hora podia estar repimpada numa cama asséptica, a ser escortanhada por um qualquer cirurgião provavelmente sem direito a exames prévios que apurassem da necessidade da extracção do órgão em causa.
Estou convicta que isto há-de ser uma questão de modas. Da velhinha amigdalectomia passámos com igual paixão e vigor para a colecistectomia videolaparoscópica. Uns furinhos e já está!
Para terminar, cingindo-me com rigor à enumeração em título, falta-me a referência à teoria da conspiração. Que fazem os hospitais com tanta vesícula abortada? Quem ganha com isto? Neste País alternativo nenhuma hipótese é de descurar e receio que a minha pobre vesícula pudesse estar hoje a ser exportada através de alguma suspeita rede de tráfico vesicular. Com que fim? Sei lá eu, mas aposto que há-de uma nova iguaria requintada para esses gastrónomos destemperados e sedentos de novidades que são os asiáticos! Ufa!
Dá-se agora o caso de, no outro dia, ter sido atacada por mais uma dor insuportável provocada por uma crise de vesícula. Interrompi os meus trabalhos de diligente funcionária e dirigi-me ao centro de saúde. Fui atendida com bastante prontidão e revisitei a maca onde, já no ano transacto, estive igualmente estendida pelo mesmo motivo a receber soro com analgésico. Após meia hora de chuto para a veia, fui de novo à médica que me confronta com a sua solução para o problema:
- Ouça, porque é que não vai agora mesmo para o Hospital para lhe tirarem a vesícula? Isso não está aí a fazer nada! É uma intervenção facílima e amanhã já está em casa.
Lá lhe expliquei que não podia, que não me dava jeito e que, na verdade, tinha de me despachar para ir buscar a minha filha à escola.
A médica olhava para mim estupefacta, como se não fosse credível que alguém perante tão maravilhosa proposta de intervenção cirúrgica, preferisse ir buscar a filha à escola. Consegui safar-me, fui buscar a miúda, fui para casa fazer o jantar e a pensar com os meus botões que àquela hora podia estar repimpada numa cama asséptica, a ser escortanhada por um qualquer cirurgião provavelmente sem direito a exames prévios que apurassem da necessidade da extracção do órgão em causa.
Estou convicta que isto há-de ser uma questão de modas. Da velhinha amigdalectomia passámos com igual paixão e vigor para a colecistectomia videolaparoscópica. Uns furinhos e já está!
Para terminar, cingindo-me com rigor à enumeração em título, falta-me a referência à teoria da conspiração. Que fazem os hospitais com tanta vesícula abortada? Quem ganha com isto? Neste País alternativo nenhuma hipótese é de descurar e receio que a minha pobre vesícula pudesse estar hoje a ser exportada através de alguma suspeita rede de tráfico vesicular. Com que fim? Sei lá eu, mas aposto que há-de uma nova iguaria requintada para esses gastrónomos destemperados e sedentos de novidades que são os asiáticos! Ufa!
Terça-feira, Junho 02, 2009
crónica
Nada há no dia-a-dia que se conte. Não há história, nem memória ou poema. Talvez uma ténue lógica de crescimento, de (re) evolução. Porque volto então? Nem a saudade, nem a pena ou a nostalgia. Porventura o medo de me esquecer do que em tempos me identificou. Ou a curiosidade de perceber o que ainda me define. Sou a que tentou de forma fútil tantos caminhos, sem a maturidade para os amadurecer com seriedade. A que ficou pela rama das escolhas por nunca ter encontrado senão um fugaz entusiasmo. Aquela em quem reina a doentia preguiça, a indolente apatia dos que nada sabem fazer. Fugiram-me os sonhos ou troquei-os a baixo preço pelo vencimento mensal. E nem sequer me pesa nada disto. Porque nem sonho algum chegou verdadeiramente a fazer-me suspirar. As metas, mais que luta, exigem persistência, férrea vontade, duro trabalho. Sou a funcionária do sentimentalismo em horário flexível e preencho o vazio com mais vazio até que os dias se entupam de rotina e me ceguem definitivamente os horizontes. Matei os neurónios e as promissoras potencialidades com comezinhas desculpas e enfadonhas historietas de amor e vida. Atrapalhavam-me as ideias e a complexidade dos pensamentos. Dificultavam-me a morte precoce e o letal entorpecimento da sobrevivência. Os que não se finaram afogados esbracejam, ainda, neste estertor.
Segunda-feira, Julho 21, 2008
helás!
Sinto que se aproxima o momento de atingir o meu máximo expoente. Momento em que me calo. A alguns a vida permite o desenvolvimento necessário para que continuem a dizer algo de verdadeiramente interessante. A outros não foi dado o descernimento para que entendam que já não importa o que dizem. Numa estatística mediana fico-me no compromisso possível. Resta-me aprender a sentir-me confortável com esta epifania da maturidade e apagar o ensejo de ser o que não sou.
Sexta-feira, Julho 18, 2008
velho cacilheiro
Encalhado. Este blogue. No entanto ainda à deriva pelas ondas desta rede unificadora de gentes. Carregado do entulho das minhas palavras despejadas no porão de arquivo. Falta-me a coragem para o pôr ao fundo, deixá-lo engolir as águas mornas do esquecimento até ao glu glu final. Prometo-me regressar ao leme e traçar-lhe novos rumos aventureiros. Haverá ainda alguém para me escutar? O estandarte é definitivo: uma gata ao sol. Os felinos são imprevisíveis, alternam entre escassos picos de agitação e a modorra sonolenta dos preguiçosos. Não foi à toa que escolhi a minha bandeira. Vamos lá pô-la então à bolina a ver onde me levam os ventos.
Quarta-feira, Maio 21, 2008
entalão
Esqueci-me do dedo na porta, mas ela não se esqueceu do meu dedo. Rejeitou-o das suas finas entranhas, deformado e dorido. Agonizante. Agora que ele me dói, dou-me conta do trabalho mudo, surdo, discreto que normalmente desempenha. Os seus companheiros, receosos de semelhante destino, hesitam penitentes segundos antes de qualquer tarefa. Eu presto-lhes a homenagem devida pela dificultada sincronia e salvaguardo o pobre desvalido de qualquer esforço consciente. Um dia, quando for eu o dedo em falta, assim será, mas tarde, tarde demais.
Segunda-feira, Abril 14, 2008
além de ti
Despertas-me da sonolência para a irrealidade.
Eu faço desenhos na tua mão para te acordar de um desejo adormecido,
- é bom encontrar-te quando já não tenho medo de mim -
serás sempre, eternamente, a exacta definição da minha felicidade.
Porque não alteraria uma só das tuas fragilidades,
porque foste, por inteiro, concebido à minha medida.
O que quero jamais irá além de ti.
Eu faço desenhos na tua mão para te acordar de um desejo adormecido,
- é bom encontrar-te quando já não tenho medo de mim -
serás sempre, eternamente, a exacta definição da minha felicidade.
Porque não alteraria uma só das tuas fragilidades,
porque foste, por inteiro, concebido à minha medida.
O que quero jamais irá além de ti.
Sexta-feira, Abril 04, 2008
the bucket list/nunca é tarde demais
Acordo com o espanto engasgado. É dia. Dia precoce, jovem e entusiasta. A temperatura empurra os edredões aos pés e os pés ao tapete do chão. Depois a água corrente e a lenta consciência que se instala. Passou tempo demais. Digo demais pelo aproveitamento deficiente dos dias, pela patética constatação das marcas irrefutáveis dos anos. É possível envelhecer em busca da adolescência. É possível atrapalharmo-nos com a rotina, confundirmos o quotidiano com uma existência. Possível é tropeçarmos na morte e ouvirmos o curto assobio da nossa melodia. Adormecermos quietos e acordarmos com o espanto na garganta. Há mais um dia. Dia precoce, jovem e entusiasta. Mas como fazê-lo diferente?
Segunda-feira, Março 17, 2008
monólogo
Claro... de entre todos, de todos sem excepção, a tua devoção é a mais sincera e a promessa dos teus beijos a mais cálida e agitadora.
Mas que queres?, se o silêncio me empurra até ao fundo do meu passado para que o enterre eficaz e terminantemente. Não, não creio que seja mentira. Talvez uma omissão, uma desculpa, a piedade. Se tu, que praticamente só me adivinhas, descobres a verdade no meu hálito, que direi eu a mim própria para me negar ou mesmo convencer?
Não lamentes nunca o acesso que te nego à minha torre. Pois se é a tua sorte. A chave, transviada nas mãos de um outro louco, evita-me a loucura. Seria eu, não vês?, culpando-te a ti, aos outros e ao mundo do que jamais lograrei esquecer.
Mas que queres?, se o silêncio me empurra até ao fundo do meu passado para que o enterre eficaz e terminantemente. Não, não creio que seja mentira. Talvez uma omissão, uma desculpa, a piedade. Se tu, que praticamente só me adivinhas, descobres a verdade no meu hálito, que direi eu a mim própria para me negar ou mesmo convencer?
Não lamentes nunca o acesso que te nego à minha torre. Pois se é a tua sorte. A chave, transviada nas mãos de um outro louco, evita-me a loucura. Seria eu, não vês?, culpando-te a ti, aos outros e ao mundo do que jamais lograrei esquecer.
ao pôr do dia
Não faço sequer a diferença. A estrada, que em socalcos desvia num beco, não traz surpresas. Abandonei as mãos ao vento e a sombra, à sombra maior das arcadas. Os bolsos virei-os de banda, ao avesso, para que não percam tempo a pedir-me o que não tenho. Enfiei o rosto abaixo da linha cómoda dos ombros como se houvesse algo a temer - mas nada! - nem sequer os incómodos de uma estrada que termina abruptamente. Quando fixar a parede suja, altiva, viro-me conformada para trás. Não se hão-de ver tijolos vermelhos e velhos nos meus olhos. Talvez o pó na ganga coçada pelo uso de anos ou os rasgões propositados nos meus sentimentos. Escolhemos estas coisas. Eu?, eu não faço sequer a diferença de deixar esbater o meu corpo na poeira do caminho. E as mãos com as palmas amplas e abertas a arranhar os interstícios de uma parede de tijolo. E agora já não sei o caminho de regresso pela estrada das arcadas sem luz...
Quinta-feira, Março 13, 2008
o amor
Voltou três, quatro vezes ao coração dele. De todas lhe disse a verdade: amava-o o melhor que sabia. E uma vida inteira ensinara-a a saber quase tudo sobre o amor - nobre e democrático sentimento de amiúde confundido com a posse - o suficiente para saber que era desprendimento, dádiva, contemplação. Por ali ficara a olhar o seu amor, a desejar-lhe os mais íntimos e suaves contornos até ao limite da fé no não retorno. Quando quase vencida partia por algum tempo. Regressou três, quatro vezes ao coração dele. Com a verdade nos olhos: amo-te! amo-te! Quase gritando: não me ouves?
De que lhe adiantava que a ouvisse?! Até perceber que o amor não precisa de retorno. Uma vida inteira para aprender uma simples lição: O amor não é feliz, é só perfeito.
De que lhe adiantava que a ouvisse?! Até perceber que o amor não precisa de retorno. Uma vida inteira para aprender uma simples lição: O amor não é feliz, é só perfeito.
Quinta-feira, Janeiro 24, 2008
o meu cartaz
O sol, essa gratuita publicidade à vida, apanha-me um sorriso desprevenido e projecta-o no meu peito. Tenho um coração a gargalhar. Tenho vento nos pés. Tenho vergonha desta ousadia de viver intensamente e vaidade na vida que me preenche. Evito despropositadas invejas - como invejar o que todos pertence? - e cerro a liberdade no meu bolso de peito. Só mais logo a verei despontar em cravo perfumado. Como esconder da realidade esta força que me acontece? Se os meus olhos anunciam em cartaz, um brilho de fé?
Terça-feira, Janeiro 15, 2008
casa fechada radiografias à tranca
Os homens têm uma certa tendência a complicar tudo quanto se lhes afigure semelhante a um processo mecânico. Algo nos genes masculinos, mesmo nos mais inábeis no que à mecânica se refere, clama por uma chance de aplicar uma lógica qualquer, a que nós, mulheres, somos completamente indiferentes.
Chamava eu um amigo para me dar uma ajuda perguntando-lhe, o que de resto lhe pareceu um absurdo, se tinha uma radiografia que me pudesse emprestar. Apesar da sua estupefacção, lá compareceu à minha porta armado de uma fotografia de raio x às suas vértebras, ainda meio desacreditado do destino que eu lhe pretendia emprestar. Confrontado com o meu drama pessoal - eu acabara de fechar a porta da rua com a chave por dentro - e não satisfeito pelo primeiro erro grave que cometeu de imediato ao recusar à minha filha o acesso à sua radiografia alegando, jocoso, que tinha vergonha porque estava nu, ofereceu-se, amavelmente, para tentar levar a cabo a tarefa que eu lhe propunha: tentar abrir a porta fazendo passar a radiografia pelo trinco.
Aí começou a complicação masculina habitual: porque o trinco era um triângulo e de forma que a radiografia tinha que entrar enviesada, porque a parte arredondada do triângulo estava para dentro, porque o ângulo de curvatura da dita tinha que ser transversal- ou seria oblíquo? - ao trinco, e o diabo a sete. Já o rapaz suava e tinha o casaco pendurado na porta do elevador quando eu, vendo o seu desespero, resolvi ir a casa da minha mãe buscar a chave suplente que lá tenho guardada, consciente, todavia, de que de nada me serviria uma vez que a outra chave estava por dentro. Mas, pensei eu, o importante é retirar o rapaz daqui antes que ele comece a desenhar no chão os planos de ataque da radiografia ao filho da mãe do trinco. Regressados de casa da minha mãe, já com a chave suplente na mala, tentei abrir a porta e, tal como eu esperava, sem resultado. Aí passei-me! Fazendo ouvidos de mercador aos reparos masculinos sobre a forma como eu metia a radiografia na frincha da porta, enfiei a dita à bruta, puxei com força para baixo e... voilá!, a porta abriu-se.
À cautela, resolvi guardar a radiografia, para futuras necessidades, no porta bagagens do carro. Dado o atraso da hora, o meu prestável amigo foi buscar o filho para jantarmos todos juntos. Quando finalmente nos sentávamos à mesa com uns hambúrgueres à frente, sai-se a minha filha para o filho dele:
- Sabes que a minha mãe tem uma fotografia do teu pai todo nu?
Não sei o que foi mais engraçado, se a cara do pai se a cara do filho ou se a cara da minha filha deliciada pela reacção que conseguiu provocar. Uma coisa é certa, as costelas do rapaz ainda estão no meu porta bagagens e, se algum dos meus leitores se vir em similar assado, é bem vindo a reclamar os meus préstimos porque, apesar de não perceber nada de mecânica, levo jeito em arrombamentos.
Chamava eu um amigo para me dar uma ajuda perguntando-lhe, o que de resto lhe pareceu um absurdo, se tinha uma radiografia que me pudesse emprestar. Apesar da sua estupefacção, lá compareceu à minha porta armado de uma fotografia de raio x às suas vértebras, ainda meio desacreditado do destino que eu lhe pretendia emprestar. Confrontado com o meu drama pessoal - eu acabara de fechar a porta da rua com a chave por dentro - e não satisfeito pelo primeiro erro grave que cometeu de imediato ao recusar à minha filha o acesso à sua radiografia alegando, jocoso, que tinha vergonha porque estava nu, ofereceu-se, amavelmente, para tentar levar a cabo a tarefa que eu lhe propunha: tentar abrir a porta fazendo passar a radiografia pelo trinco.
Aí começou a complicação masculina habitual: porque o trinco era um triângulo e de forma que a radiografia tinha que entrar enviesada, porque a parte arredondada do triângulo estava para dentro, porque o ângulo de curvatura da dita tinha que ser transversal- ou seria oblíquo? - ao trinco, e o diabo a sete. Já o rapaz suava e tinha o casaco pendurado na porta do elevador quando eu, vendo o seu desespero, resolvi ir a casa da minha mãe buscar a chave suplente que lá tenho guardada, consciente, todavia, de que de nada me serviria uma vez que a outra chave estava por dentro. Mas, pensei eu, o importante é retirar o rapaz daqui antes que ele comece a desenhar no chão os planos de ataque da radiografia ao filho da mãe do trinco. Regressados de casa da minha mãe, já com a chave suplente na mala, tentei abrir a porta e, tal como eu esperava, sem resultado. Aí passei-me! Fazendo ouvidos de mercador aos reparos masculinos sobre a forma como eu metia a radiografia na frincha da porta, enfiei a dita à bruta, puxei com força para baixo e... voilá!, a porta abriu-se.
À cautela, resolvi guardar a radiografia, para futuras necessidades, no porta bagagens do carro. Dado o atraso da hora, o meu prestável amigo foi buscar o filho para jantarmos todos juntos. Quando finalmente nos sentávamos à mesa com uns hambúrgueres à frente, sai-se a minha filha para o filho dele:
- Sabes que a minha mãe tem uma fotografia do teu pai todo nu?
Não sei o que foi mais engraçado, se a cara do pai se a cara do filho ou se a cara da minha filha deliciada pela reacção que conseguiu provocar. Uma coisa é certa, as costelas do rapaz ainda estão no meu porta bagagens e, se algum dos meus leitores se vir em similar assado, é bem vindo a reclamar os meus préstimos porque, apesar de não perceber nada de mecânica, levo jeito em arrombamentos.
Quinta-feira, Janeiro 10, 2008
antes de ir
Lê-me um conto. É outra maneira de pedir de um abraço. Eu abro o livro na primeira página, tomo o lugar vago ao teu lado e, entoando fábulas, adormeço a necessidade que sentes. Escorrego nos parágrafos enviesando a história em largos godés que ultimam o teu sono, apresso-me ao final e ao baixar das luzes, para que a noite vença o cansaço do dia e o afago da prosa te envolva nos meus braços mornos. Pouco mais sei fazer por nós do que admirar os detalhes das vírgulas que te sossegam ou as interrogações constantes nos teus olhos firmes. Nem as respostas mais directas satisfazem as reticências em que te demoras propositadamente, atrasando a inevitabilidade de um sonho tão mais amplo que o meu. Quando arrasto os pés no corredor, entreabrindo a porta que nos separa, divido o meu peito em dois, para que a melhor parte de mim te embale e te ensine a transpor os sobressaltos de um quarto escuro. Antes de ir espreito uma vez mais a tua respiração rezando ouvi-la eternamente.

